Buscar
Reportagem

Inteligência, participação social e coordenação: como combater o crime sem chacinas

Especialistas apontam formas mais efetivas e menos letais de combate ao crime; medidas estariam sendo ignoradas pelo RJ

Reportagem
30 de outubro de 2025
18:41

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Bruno Itan/Agência Pública

Venda de gás, água, transporte e combustível. Para além do tráfico de drogas, há vários outros mercados lícitos que hoje alimentam e financiam o crime organizado. Por isso, o combate às facções, que assombram a vida de moradores e perpetuam a violência, deve passar por estratégias que vão além das incursões e operações policiais, já comprovadamente falhas. É o que três especialistas em segurança pública defenderam em entrevistas à Agência Pública.

“É necessário que haja maior fiscalização e regulação de mercados lícitos que hoje são controlados por diversos grupos armados em territórios populares”, explicou a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ela cita a fiscalização do setor de transporte, do mercado imobiliário, do setor de telecomunicações e da oferta de gás e água, que são controlados por grupos armados em territórios que eles dominam, como forma de atacar “as bases econômicas desses grupos”.

Grilo ressalta, entretanto, que esse não tem sido o caminho seguido pelo governo do Rio de Janeiro, liderado por Cláudio Castro (PL). “A principal estratégia de combate e de controle do crime no Rio de Janeiro tem sido uma política pública que já se provou ineficiente ao longo das últimas décadas: as operações policiais de incursão armada em território sob domínio de grupos armados”, explica.

Por que isso importa?

  • A megaoperação ocorrida no complexo da Penha e arredores, no Rio de Janeiro, esta semana tornou-se a maior chacina da história do país com pelo menos 121 mortos.
  • Enquanto o governador Cláudio Castro chamava a operação de “sucesso”, especialistas criticavam a falta de liderança e controle das operações no Rio.

“A política de segurança pública implementada pelo governador Cláudio Castro não visa à proteção dos moradores de favelas do Rio de Janeiro. Ela visa, na verdade, a criminalização daqueles moradores”, avalia a pesquisadora Dandara Soares, do Afrocebrap, núcleo de pesquisa sobre raça do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Na última terça-feira (28), a capital fluminense se tornou palco da Operação Contenção, a mais letal da história do estado. A ação resultou em ao menos 121 mortes, incluindo a de quatro policiais. O governo ainda não apresentou provas da ligação dos mortos com o crime organizado, nem de que todos os assassinatos tenham ocorrido durante conflito. Em entrevista à imprensa, o governador classificou a ação como um “sucesso”.

Na Câmara dos Deputados, o deputado federal de direita e pastor, Otoni de Paula (MDB-RJ), disse que ao menos quatro mortos eram “meninos que nunca portaram fuzis”, filhos de pessoas de sua igreja. “Preto correndo em dia de operação na favela é bandido”, disse na tribuna da Casa legislativa. Testemunhas também denunciam mortes por tiros nas costas e marcas de facadas nos corpos resgatados em uma zona de mata.

“Foi se abandonando cada vez mais a ideia de uma política estruturada, integrada, baseada em metas e objetivos, e [se criando] uma política em que o empoderamento e autonomia das forças policiais foram dados como uma chave para lidar com esse tipo de problemas”, afirmou à Pública o pesquisador Pablo Nunes, diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).

Operação contra setor de combustíveis

De acordo com o pesquisador, as autoridades de segurança pública devem investir em inteligência e coordenação, a fim de construir “estratégias de segurança pública que estejam à altura dos desafios que a gente enfrenta no Brasil”.

“Recentemente, a gente teve uma prova do que pode ser feito no combate ao crime organizado, de uma maneira mais inteligente, sem violência, e focando na face monetária que mantém essas organizações reproduzindo o seu modo de violência”, explica. O pesquisador se referia à Operação Carbono Oculto, que buscou desmantelar esquema de fraudes e de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.

O ICL Notícias revelou nesta quinta-feira, 30 de outubro, que Castro entrou na Justiça para liberar as atividades da Refinaria de Manguinhos (Refit), suspeita de ligação com o tráfico e alvo da Operação Carbono Oculto. Na segunda-feira, 27 de outubro, um dia antes da Operação Contenção, o Tribunal de Justiça do Estado (TJ-RJ) atendeu ao pedido do governador e da empresa, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reverteu a decisão. 

“A opinião pública não está devidamente informada sobre as alternativas que existem para um combate mais eficiente ao crime e essas operações espetaculosas, como a de ontem, são muito mais visíveis do que o trabalho silencioso de inteligência, por exemplo, realizado pela Polícia Federal”, afirma Grillo. Ela considera que “políticos mal-intencionados se aproveitam da sensação de insegurança da população, que vive com medo da criminalidade, para vender soluções fáceis”, acrescenta.

PEC da Segurança Pública levanta debate necessário

Após a repercussão da chacina, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann, destacou “a urgência do debate e aprovação da PEC da Segurança”, a PEC 18/2025, que tramita desde setembro em comissão especial da Câmara dos Deputados, sob relatoria do deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE).

Foto mostra o deputado Mendonça Filho, relator da PEC da Segurança em comissão especial da Câmara, que voltou a ser pautada após megaoperação no Rio de Janeiro
Deputado Mendonça Filho, relator da PEC da Segurança em comissão especial da Câmara.

A proposta do governo federal inclui na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e confere à União a competência para estabelecer diretrizes gerais quanto à política de segurança pública e defesa social. Além disso, ela busca garantir a participação da sociedade civil na tomada de decisão e prevê a criação de órgãos de controle e transparência, para que eles apurem a “responsabilidade funcional dos profissionais de segurança pública e defesa social”.

Mendonça avalia, entretanto, que o texto original “não resolve o problema” do crime organizado no Brasil e defende “mudanças significativas” na proposta. O relator informou que quer apresentar sua versão do texto em novembro.

Grillo concorda que, apesar de importante, a PEC “não é a solução para o crime no país”. “A gente precisa de práticas do Poder Executivo muito mais do que no âmbito legislativo, de redirecionamento do trabalho policial e de ampliação das políticas sociais que têm se voltado para a juventude em situações de vulnerabilidade”.

Já Nunes destaca que a proposta é importante para iniciar o debate sobre a “falta total de cooperação entre os entes federativos em relação à segurança pública”. “O desenho constitucional de 88 não dá mais conta do grave momento de segurança pública que o Brasil enfrenta como um todo. É preciso repensar o papel dos municípios, e muito fundamentalmente, pensar o papel do governo federal frente à segurança pública”, afirma.

Soares ressalta que a sociedade civil deve ser incluída na discussão: “A partir do momento que as pessoas que vivem essa política forem ouvidas e levadas em consideração, vai haver avanços. São essas pessoas que vivem e pensam um outro futuro para esses territórios. E um outro futuro precisa ser desenhado, com uma política de segurança pública que tenha um caráter protetivo a esta população, e que não seja mais reativa, e sim preventiva”.

Edição:
Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

|

Ônibus passavam com “Garagem” no letreiro enquanto eleitores esperavam horas no ponto para votar em Salvador

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

|

Pública encontrou pontos lotados na capital; eleitores esperavam ampliação do prazo para votar, que chegou tarde demais

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

|

Com a frota retida no dia da votação, eleitores ficam a pé e o TRE mandou prender o secretário que está em Paris

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade